“Mudar o modelo de gestão é a ação mais importante, e também a mais difícil”, diz Marina Silva.

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Conhecida pelo o engajamento na área ambiental, a ex-senadora e ambientalista, Marina Silva, em entrevista, analisa a forma como o meio ambiente é visto politicamente no Brasil e expõe suas ideias para o desenvolvimento do setor. Líder do partido Rede Sustentabilidade, Marina, comenta ainda sobre a decisão de firmar uma aliança programática com o Partido Socialista Brasileiro (PSB) após ter o registro da Rede negado pelo Tribunal Superior Eleitoral no dia três de outubro deste ano, por falta de assinatura.

BlogDiasOnline: Em que momento da sua vida a senhora percebeu que o Meio Ambiente necessitava de uma representação na política, e você acredita que ele é tratado de forma plausível pelo poder público?

Mariana Silva: Tive essa percepção mais clara pela primeira vez em 1986 quando eu saí candidata como Deputada Federal Constituinte em parceria com o Chico Mendes. Naquela época ele saiu para Deputado Estadual e eu para Deputada Federal porque nós começamos a perceber que a maior parte das coisas pelas quais lutávamos não tinha base legal para dar suporte a defesa dos direitos dos índios dos seringueiros e muito menos qualquer tipo de representante que pudesse vocalizar aquelas bandeiras e aquelas lutas. Então naquele momento a nossa avaliação é de que invés de ficarmos pedindo para que nos representassem nós iríamos batalhar para sermos os representantes das causas pelas quais acreditávamos.

BDO: No dia 18 de outubro você participou de um encontro em Manaus para discutir “A contabilidade ambiental e o futuro da Amazônia” e durante o evento disse que “é preciso pensar no futuro. O lucro a qualquer custo não vale à pena”. Quais atividades devem ser colocadas em prática para que isso comece a ser uma realidade no Brasil?

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Marina durante o evento em um shopping em Manaus

M.S: A atividade mais importante ela é também a mais difícil, que é mudar o modelo de desenvolvimento. Sair do modelo insustentável, para o modelo sustentável, aonde se entenda a sustentabilidade nas suas diferentes dimensões: na sua dimensão econômica, porque afinal de contas precisamos ter qualidade de vida para emprego, saúde, educação, gerar energia, produzir alimentos, todos os bens e serviços necessários para uma vida digna, mas isso pode ser feito em base sustentáveis e já temos tecnologia e conhecimento suficiente para aumentar a produção por ganho de produtividade. E também na dimensão social, distribuindo corretamente as riquezas, para se tenha qualidade de vida. Além dessa dimensão, é a dimensão ambiental, que é usar com sabedoria os recursos de forma a atender as necessidades das gerações presentes sem comprometer o futuro daqueles que ainda não nasceram. E a dimensão da sustentabilidade cultural, porque os modelos podem ser sustentáveis do ponto de vista econômico, social e ambiental, mas não promover a preservação da diversidade cultural, como é o caso das populações tradicionais, seringueiros, índios, quilombolas, enfim, as várias comunidades nas diferentes culturas, além de outros modos de vida, que são muito importantes de serem preservados, mesmo dentro dos modelos econômicos dominantes. O maior desafio é a mudança do modelo de desenvolvimento, mas isso pode ser traduzido progressivamente na mudança da matriz energética, saindo da matriz com base em combustível fóssil para a energia renovável, limpa e segura, que vem da água, da biomassa, do vento, do sol, enfim, as fontes de geração de são sustentáveis e que podem ser aumentadas significativamente, sobre tudo, na realidade do Brasil, em que temos um grande potencial de energia solar, eólica e de biomassa, além da hidroeletricidade. Uma outra questão importante é investir pesadamente em educação de qualidade, que gera tecnologia e inovação para dar suporte a essas grandes transformações.

BDO: O Meio Ambiente e principalmente a preservação dele é um assunto muito comentado e de importância para o futuro do Planeta. Por que até hoje temos tão poucos defensores do Meio Ambiente na política?

M.S: Já tem uma maior representação política na sociedade, mas isso ainda não foi produzido, infelizmente, em representação política institucional. Mesmo assim já se conta com algumas pessoas, que dentro dos parlamentos, nas ações do executivo, tem um forte compromisso com essa agenda. Mas sem sombra de dúvidas aquilo que é um sentimento e uma preocupação da maioria da população ainda não é traduzido na maioria dos representantes. Uma demonstração disso é quando ocorreu a mudança do Código Florestal, em que a pesquisa Datafolha dava conta de que 85% da população eram contra as mudanças do Código Florestal e 85% do congresso votaram pelas mudanças para anistiar os matadores e legalizar as terras legalmente desmatadas, o que já levou um aumento de mais de 20% do desmatamento esse ano de 2013 em comparação com o ano de 2012.

BDO: Através de um vídeo a senhora se desculpou com os militantes da Rede Sustentabilidade por estar se filiando ao PSB dizendo que o novo “partido vai participar das eleições 2014 influenciando os rumos do país”. Quais as suas expectativas ambientais, com essa nova fase na sua trajetória?

M.S: O pedido de desculpas foi pelo fato de ter tomado a decisão sem conseguir fazer uma ampla consulta aos militantes da Rede Sustentabilidade. No que concerne a ideia era o que poderíamos fazer naquela circunstância que guardava mais coerência com o programa e os propósitos da Rede, e que tinha ali um potencial muito grande de que pudéssemos influenciar através das propostas, através de uma outra candidatura. De sorte que eu tenho uma esperança muito grande de que essa aliança programática possa prosperar, para que depois venha se transformar numa aliança eleitoral, porque ainda não é uma aliança eleitoral, é uma aliança programática. Se tivermos um bom programa, uma estrutura coerente com esse programa para dar credibilidade a ele, com certeza teremos uma aliança eleitoral, Rede e PSB.

BDO: Qual será o trabalho e a influência de Marina Silva nas eleições de 2014, junto ao PSB, em relação ao Meio Ambiente?

M.S: Já fizemos um primeiro seminário em São Paulo, nesse seminário nós tomamos algumas decisões, uma delas é de fazer um documento referencial que dê base à aliança programática Rede e PSB, a partir dele fazer cinco seminários regionais, que se desdobrarão em seminários em todas as unidade da federação, nos 27 estados do nosso país, para que possamos produzir as diretrizes programáticas e um programa. O programa será um trabalho da Rede e do PSB em parceria com os diferentes setores da sociedade, tanto através de ações presenciais, como em uma plataforma virtual, em que queremos envolver a maioria dos cidadãos brasileiros, porque não é apenas um programa no papel, ele tem que ser um pacto com a sociedade, para uma nova governabilidade e por um novo projeto de desenvolvimento, valorizando as conquistas, corrigindo os erros e encarando os novos desafios.

Saiba Mais: Impactos Socioambientais do novo Código Florestal

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